• Marcello Veríssimo

    A influenciadora digital plus size Juliana Nehme denunciou nas redes sociais, nesta quarta-feira (23), que foi vítima de gordofobia pela companhia aérea Qatar Airways, no Líbano. Ela disse que a empresa a impediu de pegar o voo com destino a São Paulo por ser “gorda demais”.

    Com mais de 140 mil seguidores no Instagram, o caso da influenciadora “quebrou” a internet nos últimos dois dias.

    Em vídeos postados nos stories da rede social, Juliana surgiu abalada dentro do aeroporto. Ela disse que foi barrada de embarcar na conexão do Líbano para Doha, no Qatar, que posteriormente voaria de volta para São Paulo, pois a companhia aérea considerou que ela está acima do peso, inclusive sugerindo para ela comprar uma passagem extra por ocupar duas poltronas da aeronave.

    A empresa afirmou que ela não tinha direito à passagem econômica, que foi comprada por 1 mil dólares (aproximadamente R$ 6 mil). Assim, ela teria de adquirir uma passagem executiva de 3 mil dólares (cerca de R$ 16 mil) ou dois bancos comuns para “caber no assento” e poder voar de volta ao Brasil. O caso ganhou apoio de celebridades e influenciadores brasileiros famosos, como a jornalista Astrid Fontenelle, que tem mais de 1, 2 milhão de seguidores no Instagram.

    Com a repercussão do caso, a Qatar Always divulgou nota à imprensa brasileira explicando que a exigência da compra de uma passagem adicional está “de acordo com as práticas da indústria e de forma semelhante à maioria das companhias aéreas”, mas que “trata todos os passageiros com respeito e dignidade”.

    No final da tarde desta quinta-feira (24), Juliana publicou novos stories em que disse que, após uma longa negociação, entre o consulado do Brasil no Líbano e a empresa conseguiria embarcar junto com sua mãe de volta a São Paulo.

    Gordofobia no Litoral – O caso de Juliana provocou uma espécie de efeito dominó sob um preconceito pouco falado, mas que afeta a vida de muitos brasileiros.

    De acordo com a pesquisa Obesidade e Gordofobia — Percepções de 2022, 85,3% das pessoas consideradas obesas no Brasil já passaram por situações de gordofobia. O levantamento é da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e a Sociedade Brasileira de Metabologia e Endocrinologia (SBEM). Foram entrevistados 3.621 brasileiros de 18 e 82 anos, de ambos os sexos.

    O barbeiro de Caraguatatuba, Fernando Souza, 40, é um deles. Ele disse que se solidariza com o caso de Juliana, que já sentiu a dor de ser vítima de gordofobia, mas que, com o tempo, encontrou forças para lidar com a situação. “Confesso que demorei muito tempo para entender esse tipo de preconceito, de comportamento nocivo com as pessoas. A primeira vez que ouvi falar disso na mídia, pensei que nunca tinha passado por isso, mas conforme a vida vai andando, fui pesquisando como as coisas se dão no dia a dia, a gente percebe quando as pessoas olham pra gente com maus olhos, pelo seu tamanho”, desabafou o barbeiro, que enfrenta atitudes duvidosas inclusive no trabalho. “O barbeiro tem clientes de todo tipo desde o machista homofóbico ao LGBTQIAP+, mas de um extremo ao outro tem clientes que não querem cortar cabelo com o barbeiro gordinho, ao ponto de fazer cara de nojinho e querer cortar o cabelo com o barbeiro fitness”.

    O músico, Júlio César, 42, que se mudou de Caraguatatuba para Santo André, na Região Metropolitana de São Paulo, disse que sempre conviveu bem com seu peso e foi uma criança sem grandes problemas de aceitação. Ele disse ser solidário o caso da influenciadora Juliana e que, embora não perceba o preconceito da gordofobia diretamente em sua rotina pessoal, enfrenta alguns “desconfortos” como por exemplo as poltronas dos aviões e quando precisa comprar roupas, por exemplo. “Tenho essa percepção das pessoas que têm muita dificuldade, não vou dizer que comigo é tudo as mil maravilhas. Eu casei em maio e usei um terno que já tinha, não cogitei fazer outro. São situações que nos limitam, nos tiram opções. E independente do peso, todos temos que viver de maneira digna”, ele disse.

    A reportagem do JDL apurou que no Litoral Norte não existem serviços especializados, fora dos consultórios médicos particulares, que acolham e tratem dos traumas causados pela gordofobia.

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