Ancestralidade, mitologia e homenagens: conheça a história por trás dos sambas-enredos de 2026 das escolas de samba de Ilhabela

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O desfile das escolas de samba de Ilhabela será neste sábado (7) e as agremiações já estão esquentando seus tamborins e atabaques. No coração de cada integrante, o samba-enredo pulsa pronto para ser recitado na Rua Dr. Carvalho, na Passarela do Samba. As letras de 2026 reverenciam moradores ilustres, mitologias, saberes e culturas de povos que ajudaram a construir o Brasil e até um dos sonhos mais antigos da humanidade: voar.

Confira a sinopse do samba-enredo de cada escola e a história representada pelos seus versos e refrãos.

Garrafão

A Unidos do Garrafão faz uma viagem pela mitologia iorubá (grupo étnico da África Ocidental) para exaltar o orixá Oxóssi, senhor da caça, das matas, da fartura e do conhecimento. Por meio do itã ou ítan, os contos sagrados que descrevem mitos e lendas dos orixás, vividos na cidade sagrada do povo yorubá, o enredo narra a façanha do jovem caçador que, com uma única flecha, restaura a ordem e se torna herói de seu povo.

Guiado pelos ensinamentos de Obatalá, Exu, Ossain, Ogum, Oxum, Iemanjá e Orunmilá, Oxóssi atravessa provações, cai no esquecimento e renasce eterno. Na avenida, o terreiro se abre, o axé floresce e o garrafão celebra a ancestralidade, a memória e a força do caçador que nunca erra.

Samba-enredo

Firma o ponto, batuqueiro! Vem saravá lebará, ô… Ê mojubá!

Meu garrafão é macumbeiro,

Oxóssi vai baixar nesse terreiro! (bis)

Foi há muito tempo, em ilê ifé que aconteceu.

Na festa dos inhames,

Onde o céu escureceu,

Um pássaro assombroso, de grandes asas,

Lá no castelo pousou…

E o povo horrorizado…

E assim a saga começou.

Okê, okê… Okê!

Arolé kí o!

Sua flecha é certeira,

Só eu sei onde caiu. (bis)

Obatalá ensinou o segredo da caça

Osain fez feitiço com mel e cachaça

Ora yê yê ô!

Oxum foi amor com doçura,

Logum edé nasceu com bravura e ternura.

Foi Ogum quem ensinou a lutar e a ser leal.

Não mate a ejó de Xangô,

Pois desperta o mal!

Nas águas de mãe Iemanjá,

O ebó é de orunmilá,

E quando o vento soprar…

Nosso ilê vai cantar

Compositores: Roberto Xaxa, Marcelo Dubau, Quebinho, Nico, Bebê, Tutula

Leões do ITA

A Acadêmicos Leões do Ita apresenta o enredo “Sob a Luz do Destino – Leões do Ita Canta DonDito, uma homenagem em vida a um dos maiores baluartes da cultura popular e do samba do Litoral Norte de São Paulo.

Filho biológico de Helena, DonDito é acolhido e criado por dona Laureci, mulher branca, mãe de santo, e que lhe oferece não apenas um lar, mas raízes profundas no axé, no respeito e na espiritualidade.

Criado no bairro do Ita, entre ruas de chão batido e brincadeiras simples, DonDito constrói sua infância em meio ao som dos terreiros, às bênçãos da umbanda e do candomblé, onde se torna ogã, mensageiro dos orixás, aprendendo desde cedo que o tambor também educa, protege e guia destinos.

Cantor, compositor e referência, DonDito passa a integrar e contribuir com as

mais tradicionais agremiações de Ilhabela e São Sebastião, consolidando-se

como o Pai do Samba do Litoral Norte.

Samba-enredo

Quem tem que se segurar, segura

Que o Ita vai balançar a rua

Alô DonDito a ilha veio trazer (refrão)

Flores em vida pra você

Forjado nas garras do leão, história de luta e superação, o negro menino viveu adoção

Recebe o afeto da sua mãe branca…

Cercado de amor… a aliança de família consistiu, és o retrato do Brasil, Benedito que o destino construiu

Pé descalço no chão, sem camisa

Bola, pipa, pião na ladeira

Um mergulho no mar, mais nada pra fazer (refrão)

A infância que hoje em dia não se vê

Bênção de axé vem pra sustentar

O espiritual na gira

Ogã mensageiro de Xangô… Kaô… Kaô

Mareia seus olhos de amor

O samba na alma afasta a dor

Os filhos…

Sempre honrando a cartilha

A missão de ser sambista que o pai ensinou

Seu nome é poesia na avenida

Homenagem merecida ao verdadeiro leão

Que jamais trairá seu pavilhão

Compositor: Maestro Jota

Padre Anchieta

“Ah, quem me dera voar!”. Quem neste mundo nunca teve este sonho? Imaginar-se como belos seres livres, alcançar os astros, integrar-se com o universo. Andar, correr, nadar, não basta. O homem quer ser completo e livre e, para isso, ele sonha.

A Escola de Samba Unidos de Padre Anchieta traz para a passarela seus passageiros-passistas vestindo a tradição do sonho de voar.

“O Ímpeto de Voar” trata do sonho, tão remoto quanto o próprio homem, de voar livre pelos céus. Mitos, lendas que surgem da observação dos pássaros se transformam em inventos, conquistas tecnológicas, em direção ao sonho. Hoje, esse sonho já é possível, as incríveis máquinas voadoras permitem o deslocamento do homem ao espaço. A lua é um local de pouso, mas como ainda não somos pássaros, o sonho continua.

A escola perpassa a magia do voar desde a mitologia grega até os grandes inventores, como Leonardo Da Vinci e o brasileiro Santos Dumont.

Samba-enredo

O ímpeto de voar

Ah, quem me dera voar!

Quem sabe sonhar no azul mais bonito

Livre pelos céus é possível conquistar

Tudo que encontra o infinito

Abra as cortinas do tempo

Voa o pensamento pra divina criação

Ao flutuar sobre a terra e o mar

O dom de encontrar a direção

Me leva, feito imagem e semelhança

Mitologia que resgata o passado

E um dia cruzamos o sol e a lua com seres alados

Com asas de cera, buscar liberdade

Vi Pégaso, enfim… A imortalidade

Voar num tapete, riscar o céu

E ver a magia flutuar ao léu

Mais que um privilégio…

Viajar nas asas do desconhecido

A arte fervilhando a imaginação

Desejos, profecias e caminhos

Tocar as nuvens, ser passarinho

Pra renascer e voltar pro velho ninho

Na mais fascinante aventura

Viaja atrás do conhecimento

Volte no tempo, pro mundo entender

Se hoje o céu tem pássaros de aço

O homem e o espaço

A verdade nas alturas do saber

Eu quero voar, buscar a vitória

Cruzar o limite, alcançar o infinito

Sou Padre Anchieta nas asas da imaginação

Pro meu samba pousar no seu coração

Composição: Wander da Anchieta e Léo do Cavaco

Mocidade

Houve um tempo passado, muito triste e lamentado, que hoje a história registra na luta das pessoas negras. Diante da resistência dos índios à escravidão, os portugueses e paulistas recorreram ao servilismo do negro africano. Desde 1531, há notícia da escravidão negra no Brasil.

Durante a invasão holandesa, em Pernambuco, o número de escravos fugidos no interior de Alagoas foi enorme. Formaram-se então os quilombos, refúgios de negros fugitivos que lutavam a preço de sangue pelo direito de liberdade. Desses grupos, o de Palmares foi o que mais tempo durou, de 1630 a 1695, e o que ocupou maior área territorial, cerca de quatrocentos quilômetros quadrados dos atuais estados de Pernambuco e Alagoas.

Entre fugas e batalhas, o paraíso de Palmares foi criado para ser o símbolo da resistência dos negros escravizados. Chega de açoite, chega de lamento, a bravura e a resistência voam com a esperança em busca da liberdade. Vidas sacrificadas, sangue derramado, nada foi em vão.

E é com essa força aguerrida que a Mocidade vai pisar na avenida para mostrar sua garra e apresentar essa justa homenagem aos negros que hoje conquistaram seu espaço.

Samba-enredo

Vamos exaltar a luta dos irmãos que conquistaram a liberdade

E nosso canto em louvação

Traz a força de Palmares

Pro Quilombo Mocidade

Lágrimas ao mar, sofrimento e dor na travessia

Tumbeiro onde a morte se anuncia

Traz a força africana

Pras lavouras das capitanias

Mas o negro não se intimidou

Com sua coragem resistiu ao cativeiro

Lutou contra o domínio europeu

Deixando exemplo para o povo brasileiro

Hoje tem maracatu, tem congada, tem lundu / ao som da alfaia / celebrar nossa raiz / trazendo no peito / sou negro, eu sou mais feliz!

Mas gangazumba perdeu o seu reinado

Assassinado, tido como traidor

Rejeitando a aliança

Com o opressor

Zumbi, então, se torna líder aclamado

Da resistência contra o velho bandeirante

Que em sua sanha

Destruía o sertão

Fica o legado

Dos nossos leões guerreiros

Que deram sangue

Por sua libertação

Composição: Junão Lima, Tuta Do Irapuru, Odimar Do Banjo, Leandrinho Lv, Ramiro Perré, Nei Melodia

Água na Boca

A escola traz para 2026 o batuque da umbigada, dança de expressão simbólica de saudação advinda da costa do continente africano, especialmente de Moçambique e das comunidades de linguagem Bantu. Dentre as danças circulares desse povo, destaca-se a “Caiumba” que reúne homens e mulheres em roda e na qual seus praticantes batem seus umbigos um no outro como forma de gratidão à vida.

No Brasil, escravizados da região foram levados para plantações de cana-de-açúcar nas cidades do interior paulista, um trabalho árduo e sacrificado. Um dos únicos consolos desses trabalhadores era, no cair da noite, dançar Caiumba, que, com o tempo, passou a exigir um ritmo mais concentrado e ensejou a criação do “tambu”, um tipo de tambor de madeira revestido com pele animal. A pessoa responsável pelo instrumento passou a ser chamada de “batuqueiro”.

A dança se espalha para as comunidades quilombolas e ao ritmo do “tambu” passa a incorporar poesias, cantos e lamentos do tempo de cativeiro, escravidão e dor, preservando a memória dos seus ancestrais.

Na umbigada, o culto aos orixás também se fez presente e se entrelaça com a devoção dos santos católicos em um sincretismo religioso no qual o sagrado se funde em diferentes formas, mas em uma única essência. É dessa forma que a Água na Boca reverencia a ancestralidade do povo preto que foi escravizado, trazendo alegria e alento no ritmo do batuque e da umbigada, que também viraram samba de roda, samba de terreiro e samba de enredo.

Samba-enredo

Deu água na boca, o samba raiz

Para povo feliz firmar batucada

A pele arrepia e o corpo de mola

Faz escola no tambor da umbigada

Da costa africana, a tradição

É batuque moçambique,

Bantu inspiração

Caiumba pra gira fazer kizumba

Umbigada energia, o corpo em comunhão

Memória forjada pelo marfim, lembrança divina dos ancestrais

Onde repousa a natureza

E o sol da savana vibra pela paz

A África se veste em devoção

Nasce a herança de uma geração

Bate o tambu,

Clareia a escuridão

Pra girar na umbigada

E clamar libertação

A fumaça do cachimbo

Preto velho já soprava

É reza livre que ressoa na senzala

Do cativeiro à luz da resistência

O povo dançou com a fé no olhar

No interior, lenço a colorir

A força que insiste em persistir

Veio o batuque, o lamento e a flor

Verso que apaga a dor

Nas fogueiras acesas a união

Ponto de umbanda,

Canto para os santos

A fé moldada na mesma oração

Samba, onde o samba fez escola

Do terreiro à avenida, a consagração

Composição: Rodrigo Shumacker

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