Marcello Veríssimo

A investigação para saber o que aconteceu com o helicóptero Robinson R44, que desapareceu na Serra do Mar, no dia 31 de dezembro, avança e novos detalhes revelam irregularidades no modus operandi da operação. De acordo com a polícia, o piloto Cassiano Tete Teodoro havia sido investigado em 2020 por não possuir autorização para realizar voos remunerados de táxi-aéreo. O piloto é conhecido por atender celebridades.

Em janeiro daquele ano, um vídeo viralizou nas redes sociais com um helicóptero Robinson R44, semelhante ao que desapareceu, perdendo o controle fazendo um pouso forçado no terraço de um prédio, na avenida Brigadeiro Faria Lima, centro empresarial de São Paulo.
Era Carlos quem pilotava a aeronave.

Na época, tanto piloto como os passageiros saíram ilesos. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) registrou o caso por existirem indícios de prestação de serviço irregular de táxi-aéreo. Teodoro não tinha autorização legal para oferecer voos remunerados na época.

Na ocasião do incidente na Faria Lima, a Anac afirmou aos jornalistas que existiam outros processos administrativos contra o piloto e sua empresa na ocasião, a Voe SP, para apurar denúncias de táxi-aéreo clandestino e fraudes em manutenção de aeronaves.

Famoso e Investigado – O piloto atendia gente famosa. Nas redes sociais é possível encontrar fotos dele com artistas de televisão e jogadores de futebol entre seus passageiros. Em alguns posts, ele era chamado de “Guilherme”.

Em um dos processos em que era investigado, foi acusado de fraudar o sistema de plano de voo ao informar matrícula de uma aeronave diferente da que ele usava, em 2016. As autoridades recomendaram abertura de processo para cassação da licença de Teodoro por “caso grave de apresentação de informações falsas ao órgão de controle do espaço aéreo no intuito de obter vantagens pessoais ao decolar com aeronave não autorizada”.

Na época, o piloto foi multado por conduta irregular em plano de voo e também suspenso cautelarmente, em 2017, por 93 dias, e por 73 dias em 2019, por indícios de transporte aéreo clandestino.

No caso de Ilhabela, os registros da Anac mostram o helicóptero como regular para voos e inscrito na categoria de “serviço aéreo privado”, mas com operação não autorizada para táxi-aéreo.

Licença – Em setembro de 2021, a Anac cassou a habilitação de Cassiano para pilotar. Ele tentou impedir a cassação na Justiça, mas não conseguiu.

Em setembro do ano passado, ele precisou fazer cursos de reciclagem para pedir uma nova licença, mas segue sem autorização para fazer voos de táxi-aéreo.

Durante as investigações, Cassiano disse aos jornalistas que sua empresa não estava operando e aguardava a certificação da agência reguladora. Sobre usar outro nome para apresentar aos passageiros, ele disse que “Guilherme, internamente, é um nome de pista”.

Acima das nuvens – Antes de desaparecer, o helicóptero Robinson chegou a fazer contato com o heliponto em Ilhabela.

O piloto disse que estava com dificuldades para cruzar a Serra do Mar. “Ele perguntou se eu tinha gasolina [de aviação] e disse que somente em Ubatuba. Falei para ele vir por cima da camada que o tempo aqui em Ilhabela estava bom, com muitos buracos e que a camada era muito fina e o sol estava transpassando por ela”, disse Jorge Maroum, piloto e proprietário do heliponto em Ilhabela. “Chamei no VHF na frequência do corredor litoral por aproximadamente uma hora, mas sem resposta”, completou.

Veja a conversa do piloto com a torre do heliponto:

Cassiano: Não estou conseguindo cruzar.

Heliponto: Cancelou?

Cassiano: Tô na Fazendinha, mas não consigo cruzar, está tudo fechado, tá colado.

Heliponto: Puxa vida, deixa eu ver se tem algum buraco aqui.

Heliponto: (depois de alguns minutos) Tem um buraco aqui em cima do heliponto, vem por cima.

Cassiano: Fala mais alto.

Heliponto: Tem um buraco aqui em cima do heliponto.

Cassiano: Tá bão, tá bão.
Em outra ligação, o piloto diz que não vai conseguir subir:

Cassiano: Está colado aqui e não vai dar certo.

Heliponto: Vem por cima, tem um buraco aqui.

Cassiano: Aqui onde estou não tem condição de subir, não dá para subir, está tudo colado. Não consigo ir por cima da camada.

Heliponto: Acha um buraco e você sobe e vem para cá, tem um buraco aqui.

Cassiano: Tá bom, já, já eu vou.

Na última ligação, o piloto diz que vai tentar subir.

Cassiano: Jorge, vou tentar ir por cima.

Heliponto: Você viu a imagem que mandei?

De acordo com o heliponto de Ilhabela, a imagem enviada ao piloto foi do céu azul em Ilhabela, com poucas nuvens, tirada às 14h40 do domingo (31).

Jorge disse acreditar que o piloto estava em uma situação difícil. “Cercado de nuvens, como num labirinto. Ele não estava conseguindo subir acima das nuvens, onde a condição estava boa. Se chegasse a 5.000 pés, o tempo estava maravilhoso”.

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